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Da fonte ao mar, Bíblia, Palavra peregrina companheira da vida

Vivo nas montanhas onde nascem as fontes, onde a água sussurra segredos. Testemunho a nascitura dos rios, ouço, timidamente, seu canto enquanto corre. Vivo nas montanhas e, embora daqui não veja o mar, sei que é para ele que todas as fontes e rios se entregam. O Mar é o futuro da fonte! Mas como pensar no futuro se ele é somente uma promessa? Onde buscar seus sinais para que a nascente possa crer?

“ÁGUA É VIDA” foto de Pedro Jardim, Colégio Anchieta (Nova Friburgo, RJ) para o 4º Concurso de Redação e Arte da RJE – 2019

A Bíblia é Palavra viva na própria vida do povo. Povo que se forma da terra na crença em torno dessa Palavra que é fonte de água viva. Água princípio de vida; terra, princípio do homem. Estranha mistura que do húmus, faz humanidade, palavra dita e feita!

A água que desce dos mananciais tem sede de infinito, tem sede de ser. Assim é a Bíblia, Palavra-fonte, que nasce nas profundezas, pequena e quieta, vence a rocha e se lança no caminho como Palavra peregrina em busca do coração. Palavra-fonte é aquela que dormiu no centro da terra, acordou e ousou peregrinar. E peregrinou pela história, venceu o tempo, remoçou como fonte eterna de juventude.

Mas a Bíblia é também Palavra-rio, que ganha um corpo caudaloso, que fala pela boca das criaturas que o habitam e que alimenta quem vive as suas margens. Palavra-rio é aquela que revela, que manifesta, que banhando o corpo purifica a alma. Como Palavra-rio, a Bíblia acompanha as gentes, nutri as comunidades, faz-se presença no meio: Deus no meio de nós! Bíblia, Palavra-rio, corredeira de infinito, na qual nos alimentamos, nos banhamos e nos movemos.

Por fim, a Bíblia é também Palavra-mar: profunda, imensa e generosa. Mar que oxigena a terra, mais que as florestas. Mar que convida, encanta, envolve, alimenta e amplia o olhar. Experiência de silêncio e profundidade, mergulho no âmago. Mar que é mistério, porque tudo é mistério. Mar que Jesus acalmou, por onde andou, e onde descansou junto aos amigos. Mar onde Jesus revelou-se Cristo. Como Palavra-mar ela é plenitude!

Na fonte dos pais da fé e dos profetas, nos rios dos apóstolos e seguidores, no mar que é o próprio Cristo, somos todos humanidade em busca da Palavra que salva o futuro. E salva, porque as comunidades que formamos têm a forte convicção de que a fonte, o rio e o mar, são presença. Mais que força e anunciadores de certezas, são comunicadores de vida, daí a importância de uma Palavra viva na vida dessas comunidades, na vida do povo pobre e sofredor, na vida dos cristãos que, por acreditar, constroem o futuro. Konings (2020) ressalta essa afirmação e nos alerta:

Não basta proporcionar aos pobres a leitura da Bíblia. Eles devem descobrir que a Bíblia fala da vida deles e de seus irmãos, e que, nas situações de opressão e injustiça, o Deus da Bíblia está no lado dos oprimidos também nas suas lutas em nível histórico e secular. Trata-se de fazer com que o povo seja o sujeito de uma leitura que lê na Bíblia sua própria vida.

“O olhar de Esperança” de Helena Feijó para o 4º Concurso de Redação e Arte da RJE (2019).

Na esteira do Pedagogia Inaciana, nossas Unidades Educativas assumem, em seus projetos, fazer a Palavra fonte-rio-mar chegar a todos, como ponte de acesso a um novo mundo, onde todas as sedes, mas principalmente a dos mais pobres e desvalidos são saciadas. Onde se valoriza e se defende o direito de buscar as fontes, de preservar os rios e proteger o mar. Isso se faz na promoção de uma educação integral cuja o fundamento é o próprio Evangelho, portanto, uma educação comprometida com a Palavra salvífica que o Cristo veio realizar: “eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

A educação jesuíta permite ver, porque comunica e compromete, enraizada em Cristo, que o futuro é construção coletiva, sonho de justiça, equidade e paz. Escuta e tem atenção às vozes da humanidade-húmus que brotam das fontes, dos rios e do mar, que abraça a Casa Comum e a defende para as futuras gerações, conscientes de que nos situamos num presente exigente no qual se faz urgente promover a esperança e a reconciliação.

Como expressa Bento XVI (2010) na Exortação Apostólica Verbum Domini, nº 91, “O homem precisa da «grande Esperança» para poder viver o seu próprio presente – a grande esperança que é «aquele Deus que possui um rosto humano e que nos “amou até ao fim” (Jo 13, 1)». E, ainda: “Não podemos guardar para nós as palavras de vida eterna, que recebemos no encontro com Jesus Cristo: são para todos, para cada homem”.

Enquanto o futuro é promessa, a Palavra de Deus é presença, mas reclama o encontro. Papa Francisco (2020), em sua Carta Apostólica Scripturae Sacrae Affectus, chama a atenção para a falta de habilidades hermenêuticas capazes de nos tornar intérpretes e tradutores de nossa própria tradição cultural e dirigindo-se aos jovens diz:

De forma especial aos jovens, quero lançar um desafio: parti à procura da vossa herança. O cristianismo torna-vos herdeiros dum património cultural insuperável, do qual deveis tomar posse. Apaixonai-vos por esta história, que é vossa.

Como escolas da Rede Jesuíta de Educação Básica, buscamos as fontes, os rios, o mar. Constituímos uma rede que se lança na missão de oferecer aos pobres, aos jovens, e a nós mesmos, um futuro esperançoso, construído pela força da Palavra que é história de vida, que anima, compromete e realiza, que nos faz peregrinos como Santo Inácio e seus companheiros, para a ajudar as almas.

Desse modo, ancorados na espiritualidade inaciana, somos então convidados a conhecer e ensinar a conhecer o sussurro das fontes, a cantata dos rios e a sinfonia do mar. E respondemos, ainda que de modo inexato, porque cremos que:

“Fonte de vida” por Luisa Mazo, do Colégio São Francisco Xavier, para o 4º Concurso de Redação e Arte da RJE (2019).

Se a música do Evangelho cessar de repercutir nas nossas casas, nas nossas praças, nos postos de trabalho, na política e na economia, teremos extinguido a melodia que nos desafiava a lutar pela dignidade de todo o homem e mulher». Outros bebem doutras fontes. Para nós, este manancial de dignidade humana e fraternidade está no Evangelho de Jesus Cristo. (FRANCISCO, Carta Encíclica Fratelli Tutti, nº277)

Nesse Ano Inaciano, associado ao 50ª aniversário do Mês da Bíblia, abramos nossos ouvidos para a Palavra fonte-rio-mar que faz “Ver novas todas as coisas em Cristo”, e ouçamos o clamor para construirmos unidade em torno de uma mesma humanidade que compartilha sonhos de futuro, “pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus” (Gl 3,28).

Somos peregrinos da esperança em busca do novo céu e nova terra (Ap. 21,1). Buscamos a rocha-fonte, o caminho-rio e a imensidão-mar. Essa é a nossa essência: viver de encontros e de palavra. Encontrar as fontes, seguir os rios e alcançar o mar do Amor de Deus, sempre inesgotável mistério.

Autora:

Angélica Engel
Coordenadora de Formação Cristã do Colégio Anchieta de Rio de Janeiro 

Referências:

BENTO XVI. Exortação Apostólica Verbum Domini. 2010.Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/apost_exhortations/documents/hf_ben-xvi_exh_20100930_verbum-domini.html

FRANCISCO. Carta Apostólica Scripturae Sacrae Affectus. 2020. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco-lettera-ap_20200930_scripturae-sacrae-affectus.html

__________. Carta Encíclica Fratelli Tutti. 2020. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html

KONINGS. Johan. Hermenêutica bíblica da Teologia da Libertação. Revista Sociedade e Cultura. 2020, v. 23: e59847. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/fcs/article/view/59847